Depois de quase duas décadas de espera, Metroid Prime finalmente recebeu um novo capítulo principal. Beyond preserva praticamente toda a base da trilogia original: exploração em primeira pessoa, combate baseado no Arm Cannon, aquisição gradual de habilidades e o tradicional ciclo de revisitar áreas para desbloquear novos caminhos.
Ao mesmo tempo, a Retro Studios buscou modernizar essa fórmula com novas mecânicas, como os poderes psíquicos de Samus e a introdução da Vi-O-La, uma motocicleta utilizada para explorar áreas mais amplas do planeta. São novidades interessantes no papel e que funcionam bem do ponto de vista mecânico.
O problema é que nenhuma delas consegue esconder aquilo que mais me incomodou durante a campanha: Beyond raramente desperta a vontade de explorar. A sensação constante de descoberta, que sempre foi um dos pilares da série Prime, acaba dando lugar a uma progressão previsível, um mundo que recompensa pouco a curiosidade do jogador e uma narrativa que demora demais para criar impacto.
Depois de concluir a campanha, revisitar diversas áreas e abandonar a busca pelo 100%, fiquei com uma sensação difícil de ignorar. Metroid Prime 4 Beyond é um jogo extremamente competente tecnicamente, mas que, para mim, perdeu justamente o elemento que sempre fez da franquia uma das minhas favoritas: o prazer de explorar um mundo desconhecido.
Um Metroid menos solitário
Uma das maiores mudanças de Beyond aparece logo nas primeiras horas de jogo. Historicamente, a série Metroid sempre construiu sua identidade em torno da solidão. Boa parte da experiência consistia em explorar ambientes desconhecidos praticamente sem companhia, interpretando o cenário e descobrindo sozinho para onde seguir.
Beyond segue um caminho diferente.
Durante boa parte da campanha, Samus interage constantemente com aliados que participam da missão e mantêm contato frequente. Em diversos momentos, esses personagens indicam objetivos, sugerem o próximo destino ou simplesmente interrompem a exploração para transmitir novas informações.
Essa mudança altera bastante o ritmo da aventura. Em vez da constante sensação de isolamento característica da franquia, o jogo assume uma estrutura mais guiada. Não chega a comprometer completamente a experiência, mas reduz aquela sensação de estar realmente perdido em um planeta desconhecido, algo que sempre considerei um dos maiores acertos da série Prime.
Explorar deixa de ser tão recompensador
A exploração sempre foi um dos pilares da franquia Metroid Prime. Nos jogos anteriores, cada novo equipamento desbloqueado despertava imediatamente a curiosidade de revisitar áreas antigas, encontrar caminhos alternativos e descobrir segredos que antes pareciam inalcançáveis. Beyond mantém essa estrutura, mas a sensação de recompensa acabou sendo bem diferente durante a minha experiência.
Uma das principais novidades desta edição é a Vi-O-La, uma motocicleta futurista utilizada para atravessar áreas específicas do mapa. A ideia funciona bem do ponto de vista mecânico. Controlá-la é divertido, ela possui recursos próprios, como impulso e disparos, e ajuda a tornar os deslocamentos mais rápidos. É uma adição interessante à fórmula da série e uma das novidades que mais gostei de experimentar.
O problema é que ela acaba servindo a um mundo que raramente me incentivou a explorá-lo. Grande parte do mapa aberto funciona como um enorme hub de ligação entre regiões, mas boa parte desse espaço transmite a sensação de estar vazio. Em vez de recompensar a curiosidade do jogador com novos caminhos, segredos ou encontros interessantes, frequentemente a exploração se resume a atravessar longas distâncias ou coletar um minério verde utilizado em determinados momentos da progressão.
Esse excesso de deslocamentos também prejudica o backtracking. Revisitar áreas antigas sempre fez parte da identidade da franquia, mas normalmente isso acontecia porque um novo equipamento permitia enxergar o mapa sob outra perspectiva. Em Beyond, diversas viagens acabam acontecendo apenas para cumprir objetivos ou retornar a regiões já conhecidas, sem que exista uma recompensa equivalente pelo tempo investido.
Essa sensação ficou ainda mais evidente quando decidi buscar a conclusão de 100%. Além da coleta tradicional de melhorias, o jogo exige completar praticamente todos os registros de scan espalhados pelo mapa. A ideia seria interessante se o progresso fosse mais transparente, mas nem sempre fica claro quais elementos realmente fazem parte dessa porcentagem.
Existem objetos que podem ser escaneados apenas durante momentos específicos da campanha e que deixam de existir depois. Caso um deles seja perdido, a conclusão de 100% pode se tornar impossível naquela partida, mesmo que o jogo nunca avise isso ao jogador. Pior ainda, nem todos os scans encontrados contam para a porcentagem final, criando uma situação em que o próprio sistema deixa de comunicar claramente quais registros são realmente importantes.
Para quem gosta de completar tudo sem recorrer a guias, essa acabou sendo uma das partes mais frustrantes de toda a experiência. Em vez de incentivar a exploração, o sistema de scans frequentemente gera insegurança, fazendo o jogador se perguntar se deixou passar algum elemento importante sem sequer perceber.
Uma campanha que demora para surpreender
Embora Beyond apresente novas habilidades ao longo da campanha, a sensação de novidade não dura tanto quanto eu esperava.
Logo após desbloquear o primeiro dos novos disparos especiais, ficou bastante evidente qual seria a lógica utilizada pelo restante da progressão. Em vez de surpreender constantemente com novas formas de explorar o mundo ou resolver desafios, boa parte das melhorias segue uma estrutura bastante previsível.
Isso faz com que a campanha passe a repetir sua própria fórmula muito antes do esperado. O combate continua funcionando bem, os controles permanecem precisos e o level design mantém a qualidade característica da Retro Studios, mas a vontade de descobrir “qual será a próxima grande habilidade” acaba desaparecendo relativamente cedo.
Talvez esse tenha sido o principal motivo de eu abandonar a campanha duas vezes antes de finalmente concluí-la. Eu tinha a intenção de terminar o jogo poucas semanas após o lançamento, mas a progressão perdeu força em determinados momentos e acabei retornando meses depois para finalizar a aventura.
Mecanicamente, é difícil apontar grandes defeitos
Se existe um aspecto em que Metroid Prime 4 Beyond merece elogios, é na sua execução técnica. O combate continua extremamente competente. Atirar, alternar habilidades, utilizar os poderes de Samus e enfrentar os diferentes inimigos transmite a mesma sensação de precisão que sempre caracterizou a série Prime. Os controles respondem muito bem aos comandos e dificilmente a dificuldade vem de limitações da jogabilidade.
Visualmente, o jogo também impressiona. Os cenários apresentam ótima qualidade artística, as criaturas possuem designs marcantes e os efeitos das armas ajudam a tornar cada confronto bastante agradável de acompanhar. Não é um jogo que busca realismo extremo, mas sua direção de arte consegue construir ambientes interessantes e coerentes com o universo da franquia.
A trilha sonora segue a mesma linha. Ela cumpre bem seu papel ao reforçar a atmosfera de exploração e acompanha os momentos mais importantes da campanha sem destoar do restante da experiência. Talvez não existam muitas músicas que permaneçam na memória depois dos créditos, mas o conjunto funciona muito bem durante a jornada.
Também encontrei um jogo bastante polido. Durante toda a campanha, não enfrentei bugs relevantes, problemas de desempenho ou falhas que comprometessem a experiência. Em um período em que grandes lançamentos frequentemente chegam ao mercado precisando de diversas atualizações, Beyond entrega um nível de acabamento digno de elogios.
Nem sempre um jogo tecnicamente excelente consegue prender o jogador
O curioso é que todos esses acertos não foram suficientes para manter meu interesse durante toda a campanha.
Em diversos momentos eu continuava jogando porque queria terminar a história, não porque estava ansioso para descobrir o que existia logo depois da próxima porta. A repetição da estrutura, somada ao excesso de deslocamentos e à previsibilidade da progressão, acabou diminuindo minha vontade de continuar explorando.
Foi justamente por isso que abandonei a campanha duas vezes antes de finalmente concluí-la. Não houve um momento específico que me fez parar de jogar. Foi simplesmente uma perda gradual de interesse, algo que raramente acontece comigo em jogos da franquia Metroid.
Essa talvez tenha sido minha maior decepção. Beyond faz praticamente tudo certo do ponto de vista técnico, mas poucas vezes desperta aquela curiosidade constante que normalmente define uma boa aventura de exploração.
Um desfecho marcante, mas que não salva a jornada
O capítulo final consegue elevar bastante o ritmo da campanha. Sem entrar em spoilers, a reta final apresenta momentos visualmente impressionantes, um tom mais sombrio e acontecimentos que dão mais peso à narrativa. Foi justamente nessa parte que senti a campanha atingir o potencial que eu esperava desde o início.
Infelizmente, para mim, esse crescimento acontece tarde demais.
Embora tenha gostado bastante da conclusão, ela não conseguiu compensar o ritmo irregular das dezenas de horas anteriores. Um bom final certamente deixa uma impressão positiva, mas não muda o fato de que grande parte da aventura nunca conseguiu me envolver da mesma forma que os melhores jogos da franquia.
Vale o seu tempo?
Metroid Prime 4 Beyond é um jogo curioso porque seus maiores problemas não estão na parte técnica, mas nas escolhas de design.
O combate continua excelente, os controles são precisos, a direção de arte mantém a qualidade da série e o jogo chega ao mercado extremamente polido. Em termos de acabamento, é difícil encontrar grandes críticas.
O problema é que Beyond frequentemente sacrifica aquilo que sempre considerei o coração da franquia: a sensação de descoberta. A exploração é excessivamente guiada, o backtracking perde parte do seu encanto, a busca pelo 100% se torna frustrante e a progressão acaba ficando previsível muito cedo.
O resultado é uma aventura competente, mas que nunca conseguiu me prender por completo. Mesmo reconhecendo seus méritos técnicos, dificilmente recomendaria Beyond para alguém apenas por causa de seu desfecho. Existem momentos excelentes ao longo da campanha, especialmente no final, mas eles não compensam uma jornada que, para mim, demorou demais para engrenar.
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