Mina the Hollower é um jogo de ação e aventura da Yacht Club Games que parece ter sido encontrado em uma prateleira de outra época e, ao mesmo tempo, foi desenvolvido pensando em tudo que os videogames modernos permitem fazer. A primeira coisa que chama atenção é justamente sua apresentação inspirada nos jogos portáteis antigos, especialmente na estética que remete ao Game Boy. É uma escolha bastante específica e que, provavelmente, pode afastar muitos jogadores antes mesmo que eles descubram o que existe por trás daqueles gráficos. Para mim, porém, essa identidade funciona muito bem porque a nostalgia não está apenas na aparência: ela está na maneira como o jogo apresenta seu mundo, seus segredos e suas descobertas.
Desde os primeiros momentos, Mina the Hollower deixa claro que não pretende explicar tudo ao jogador. Há caminhos que parecem levar a lugar nenhum, itens que ficam à vista mas parecem inacessíveis, personagens que dão pistas durante conversas e até informações espalhadas por jornais. Muitas vezes, a resposta está ali, mas cabe ao jogador perceber o que aquela informação significa. Essa liberdade fez com que minha experiência fosse muito baseada em curiosidade e descoberta, e é justamente isso que acabou tornando a jornada tão particular.
Uma estética que parece ter saído de outro videogame
A escolha artística de Mina the Hollower é uma das características mais marcantes do jogo. Em uma época em que produções modernas disputam atenção com gráficos cada vez mais detalhados, a Yacht Club Games decidiu seguir na direção contrária e construir um jogo com uma estética fortemente inspirada nos portáteis antigos. O resultado é uma apresentação que remete imediatamente ao passado, mas sem parecer que o jogo está simplesmente tentando reproduzir uma experiência antiga. Existe uma direção de arte própria por trás daqueles pixels, com diferentes regiões apresentando identidades visuais bem definidas.
Essa decisão também cria uma barreira natural para parte do público. Basta olhar para Mina the Hollower para perceber que ele não está tentando agradar quem procura uma apresentação visual moderna. É uma escolha que pode fazer muita gente simplesmente passar direto pelo jogo, principalmente se não tiver nenhuma ligação com esse tipo de estética. No meu caso, aconteceu o contrário: a aparência foi justamente uma das coisas que me fez entrar no clima da aventura. Mina consegue usar a nostalgia como ponto de partida, mas não depende dela para sustentar a experiência.
Personagens e pistas espalhadas pelo mundo
Uma das coisas que mais gostei em Mina the Hollower é a maneira como o mundo vai apresentando informações sem interromper a exploração para explicar tudo. Os NPCs têm suas próprias histórias e, em muitos casos, as conversas dão pistas sobre acontecimentos, lugares ou coisas que podem ser encontradas pelo caminho. Os jornais também ajudam a contextualizar o que está acontecendo, enquanto sidequests e pequenos eventos vão acrescentando detalhes ao mundo. Nada disso parece obrigatório para entender o que está acontecendo, mas prestar atenção nessas informações muda a maneira como você enxerga alguns lugares e personagens durante a aventura.
Essa mesma filosofia aparece na exploração. O jogo frequentemente coloca um item ou algum outro elemento em um lugar que parece impossível de alcançar, e a primeira reação é simplesmente pensar que ainda não existe uma forma de chegar até lá. Só que, em alguns casos, existe. Às vezes o caminho está escondido em um buraco que você não percebeu, uma passagem exige alguma habilidade específica ou a solução depende de uma mecânica que você ainda não descobriu. Eu mesmo passei bastante tempo sem perceber que era possível cavar debaixo d’água e cheguei a pensar que tinha encontrado uma situação que poderia me impedir de continuar. Mina dá muitas indicações sobre onde você pode ir, mas algumas delas são tão discretas que descobrir o que fazer acaba fazendo parte da própria exploração.
Um combate que deixa espaço para diferentes estilos
O combate de Mina the Hollower funciona muito bem porque, desde cedo, o jogo oferece diferentes maneiras de enfrentar os inimigos. As armas têm características próprias e mudam a forma de jogar, enquanto as relíquias podem melhorar tanto o combate quanto a mobilidade. Os gadgets também ampliam essas possibilidades, embora eu tenha usado pouco essa parte do arsenal durante a minha campanha. Acabei deixando os upgrades dos gadgets para mais tarde e, mesmo assim, consegui avançar usando praticamente os primeiros equipamentos que encontrei. Isso mostra como o jogo não obriga o jogador a montar uma configuração específica para conseguir progredir.
A morte também tem um papel importante nessa estrutura. Quando você morre, existe a possibilidade de perder recursos caso não consiga recuperar o que deixou para trás, e para recuperá-los é preciso enfrentar novamente o inimigo responsável pela sua morte. Isso fica especialmente interessante quando o adversário acabou de aparecer e você ainda não conhece seus ataques. Além disso, o jogo coloca inimigos mais fortes e desafios intermediários pelo caminho, fazendo com que você precise aprender seus padrões antes de chegar aos confrontos principais. É uma forma natural de fazer o combate evoluir junto com o jogador, sem depender apenas de aumentar a dificuldade de uma hora para outra.
Quando todas as descobertas começam a fazer sentido
Mina the Hollower possui dois finais, mas chegar ao final verdadeiro no primeiro playthrough é extremamente difícil sem saber previamente o que deve ser feito. Sem usar guias, o caminho até o final canônico acontece de maneira bastante natural, já que algumas ações que parecem completamente normais durante uma primeira campanha podem fazer com que o jogador perca a possibilidade de alcançar o outro final sem sequer perceber. É somente perto do fim que uma cena deixa claro que algumas escolhas feitas durante a aventura tiveram consequências e indica que existe um segundo final. O problema é que essa revelação ainda não explica tudo o que precisa ser feito — e, principalmente, o que não pode ser feito — para chegar até ele. Por isso, para quem quiser buscar o final verdadeiro, um guia acaba sendo praticamente indispensável.
Depois de descobrir que existe um segundo final, começa uma sequência bastante longa de ações que precisam ser realizadas na ordem certa para alcançá-lo. O mais interessante é que algumas dessas condições não são óbvias e, mesmo sabendo que existe um caminho diferente, ainda é necessário entender exatamente o que o jogo espera do jogador. Foi uma experiência que me impressionou pela maneira como os desenvolvedores construíram essa sequência, embora, depois de terminar a campanha e ainda precisar passar por tudo isso, eu já estivesse pronto para seguir para o próximo jogo. Mesmo assim, quando finalmente todas as condições são cumpridas e o caminho para o final verdadeiro se completa, fica evidente o tamanho do trabalho colocado nessa parte da aventura.
Vale o seu tempo?
Mina the Hollower é uma experiência que funciona muito mais pela maneira como coloca o jogador dentro do mundo do que pela quantidade de explicações que oferece. A estética retrô pode não agradar a todos, mas, para quem compra essa proposta, existe um jogo moderno por trás daqueles pixels, com exploração aberta, personagens interessantes, diferentes possibilidades de combate e muitas coisas para descobrir.
Eu gostei bastante de como Mina me deixou seguir meu próprio caminho e descobrir suas mecânicas aos poucos, sem transformar a aventura em uma sequência de instruções. O caminho para o final verdadeiro exige bem mais atenção e, nesse caso, um guia é praticamente necessário, mas também mostra o quanto os desenvolvedores pensaram nas possibilidades escondidas dentro daquele mundo. Para mim, é uma aventura que conseguiu unir nostalgia e criatividade de uma maneira muito particular, e que vale a pena conhecer principalmente se você gosta de jogos que deixam espaço para o jogador descobrir como tudo funciona.
Prós e Contras
Prós
- Estética retrô muito bem construída
- Exploração livre e cheia de descobertas
- Personagens e mundo com bastante personalidade
- Combate variado e com diferentes possibilidades
- Trilha sonora marcante
- Final verdadeiro criativo e elaborado
Contras
- A estética pode afastar jogadores que procuram uma apresentação mais moderna
- Algumas pistas e mecânicas são sutis demais
- O caminho para o final verdadeiro exige informações que dificilmente serão descobertas em um primeiro playthrough
💾 Último Save

📼 Gravado em Fita
Quer acompanhar Mina the Hollower do começo ao fim? Confira o LongPlay completo do Último Save, dividido em três vídeos.
