Resident Evil passou por uma transformação enorme ao longo dos anos. A partir de Resident Evil 4, a franquia começou a caminhar cada vez mais para a ação, e os jogos seguintes levaram essa característica ainda mais longe. Quando comecei Resident Evil 7, uma das coisas que mais me chamou atenção foi perceber que a Capcom estava tentando fazer justamente o caminho contrário: trazer o terror novamente para o primeiro plano da série.
Para isso, RE7 muda bastante a forma como a aventura é apresentada. O jogo coloca Ethan Winters em uma situação completamente desconhecida e o leva até a propriedade da família Baker, onde exploração, combate, gerenciamento de recursos e puzzles são utilizados para construir uma experiência muito mais focada em tensão e horror.
A mudança para a primeira pessoa é uma parte importante dessa transformação. Depois de tantos Resident Evil em terceira pessoa, enxergar tudo pelos olhos de Ethan muda completamente a maneira como o cenário é apresentado. A casa deixa de ser apenas um lugar que estou observando e passa a ser um ambiente que estou explorando diretamente. Corredores, portas, quartos e até pequenos detalhes do cenário ganham muito mais importância porque estou constantemente olhando ao redor para entender o que existe naquele espaço.
E isso combina muito bem com a proposta do jogo. Resident Evil 7 não precisa transformar cada encontro em um grande tiroteio. Muitas vezes, o que importa é a atmosfera, a exploração e a expectativa pelo que pode acontecer no próximo cômodo. Depois de uma franquia que havia colocado a ação cada vez mais em evidência, foi interessante voltar a jogar um Resident Evil em que o medo volta a ser uma parte fundamental da experiência.
Resident Evil 7 no VR era uma experiência à frente do seu tempo
Quando Resident Evil 7 chegou, a realidade virtual ainda estava longe de ser algo comum nos grandes lançamentos. O PlayStation VR tinha acabado de entrar nesse mercado, e experiências de grande orçamento feitas especificamente para VR ainda eram relativamente raras. Ter um jogo do porte de Resident Evil 7, com toda a estrutura de uma produção AAA, funcionando em realidade virtual era algo que chamava bastante atenção.
E existe um motivo para isso funcionar tão bem: Resident Evil 7 já havia sido construído em primeira pessoa. A perspectiva que ajudava a aproximar o jogador da casa dos Baker também era perfeita para colocar aquela experiência dentro de um headset. Em vez de observar Ethan explorando aquele lugar, eu passava a enxergar a propriedade diretamente pelos olhos dele.
Eu quis experimentar isso por conta própria e coloquei o Resident Evil 7 no PlayStation VR original. Só que rapidamente descobri que uma coisa é jogar um jogo de terror em uma televisão, sabendo que estou sentado confortavelmente no meu sofá. Outra completamente diferente é colocar aquele ambiente ao meu redor.
A experiência foi intensa demais para mim. Consegui avançar até o segundo capítulo, mas chegou um momento em que um dos Baker começou a me seguir pela casa. E ali eu simplesmente não tive coragem de continuar. Não foi porque o jogo estava difícil ou porque eu estava tendo algum problema com os controles. Eu simplesmente não queria continuar naquele lugar. Tirei o headset e abandonei o VR.
Depois voltei para o jogo normalmente, na televisão, e consegui terminar a campanha. Mas aquela experiência acabou ficando marcada na minha memória justamente porque mostrou, de uma maneira muito prática, o quanto a proposta de Resident Evil 7 funcionava.
No VR, eu não estava apenas vendo a casa dos Baker. Eu estava olhando para ela ao meu redor, procurando por ameaças e tentando descobrir o que estava acontecendo. A sensação de proximidade era completamente diferente.
E talvez seja por isso que essa tentativa tenha sido tão importante para a minha experiência com RE7. A realidade virtual não foi apenas um recurso adicional para mim; foi o momento em que percebi que a nova direção da franquia realmente tinha conseguido me deixar desconfortável.
Depois de anos em que Resident Evil havia se aproximado cada vez mais da ação, colocar o jogador dentro daquela casa, em primeira pessoa e em realidade virtual, parecia uma maneira bastante direta de dizer: dessa vez, você vai sentir medo.
A casa dos Baker é onde Resident Evil 7 brilha
Se existe um lugar em Resident Evil 7 que resume tudo aquilo que o jogo tenta fazer, é a propriedade dos Baker. É ali que a combinação entre exploração, tensão, combate e narrativa funciona melhor, e foi durante esses momentos que eu mais me senti envolvido pela experiência.
A casa não é apenas um cenário pelo qual Ethan precisa passar para chegar ao próximo objetivo. Aos poucos, eu fui aprendendo sua estrutura, reconhecendo os corredores e entendendo quais portas ainda não podia abrir. Encontrar uma chave ou resolver um enigma para finalmente acessar uma área anteriormente bloqueada traz aquela sensação clássica de progressão que sempre fez parte de Resident Evil. A diferença é que, em RE7, voltar para um lugar que eu já conheço não significa necessariamente estar confortável nele.
Isso acontece principalmente por causa dos Baker. A família é fundamental para transformar a exploração em algo imprevisível. Cada integrante possui sua própria personalidade e maneira de interferir na jornada, e os encontros com eles acabam tendo uma identidade muito própria. Não são simplesmente inimigos mais fortes esperando pelo próximo combate: a presença deles altera completamente a maneira como eu atravesso aquele ambiente.
Existe uma tensão muito particular em saber que alguém pode estar por perto. Às vezes eu só queria atravessar um corredor para chegar ao próximo objetivo, mas a possibilidade de ser perseguido fazia com que até uma tarefa simples ganhasse outro peso. O jogo consegue trabalhar muito bem essa expectativa sem precisar recorrer o tempo inteiro a sustos.
E é justamente por isso que considero a casa dos Baker o ponto alto da campanha. Ela consegue juntar tudo que eu mais gostei em Resident Evil 7: um ambiente que vale a pena explorar, personagens que tornam essa exploração imprevisível e uma atmosfera que faz até os momentos mais tranquilos parecerem desconfortáveis.
Quando Resident Evil 7 muda de ritmo
Como acontece em outros jogos da franquia, Resident Evil 7 também muda de ritmo conforme a campanha avança. Depois de passar tanto tempo explorando a casa dos Baker, enfrentando seus moradores e descobrindo pouco a pouco os segredos daquele lugar, a aventura naturalmente começa a ampliar seus horizontes e apresentar situações diferentes.
Sem entrar em detalhes que estraguem a experiência de quem ainda não jogou, existe uma mudança de cenário e de escala que altera bastante a sensação da campanha. E foi justamente nesse momento que percebi o quanto a primeira parte havia me marcado: para mim, a experiência dentro da casa dos Baker já tinha sido tão completa que parecia quase uma aventura inteira por si só.
Isso não significa que eu considere a parte final ruim. A campanha continua avançando, apresenta novos acontecimentos e mantém meu interesse em descobrir como aquela história terminaria. O que mudou foi principalmente a sensação. Depois de tudo que havia acontecido na casa, eu já não tinha a mesma impressão de estar descobrindo aquele ambiente pela primeira vez.
É uma diferença bastante sutil. Resident Evil 7 continua sendo Resident Evil, e essa alternância entre terror, exploração e momentos mais voltados para a ação faz parte da própria identidade da série. Só que, na minha experiência, a casa dos Baker havia estabelecido um nível tão alto que qualquer mudança naturalmente seria sentida.
Por isso, quando penso em Resident Evil 7, é aquela primeira parte da campanha que imediatamente me vem à cabeça. Não porque o jogo tenha errado ao continuar sua história, mas porque a experiência que ele construiu naquele primeiro grande cenário foi tão boa que acabou se tornando o ponto de referência para todo o restante da aventura.
Resident Evil 7 ainda vale a pena?
Minha resposta é sim. Resident Evil 7 conseguiu me surpreender justamente por fazer a franquia olhar novamente para o terror depois de um período em que a ação havia ganhado cada vez mais espaço. Para mim, a experiência dentro da propriedade dos Baker é o grande motivo para jogar, combinando exploração, atmosfera e personagens que conseguem transformar aquele ambiente em algo memorável.
A mudança de ritmo ao longo da campanha não me incomodou por ser algo fora do padrão da franquia. Resident Evil sempre soube alternar terror, exploração e ação. O que aconteceu comigo foi que a experiência dentro da casa dos Baker foi tão marcante que acabou se tornando o ponto alto da campanha, fazendo com que as mudanças posteriores fossem naturalmente menos impactantes para mim.
Também gostei da maneira como a narrativa é construída. O jogo vai entregando novas informações aos poucos e consegue manter minha curiosidade durante a campanha, fazendo com que eu queira continuar descobrindo o que está acontecendo com Ethan e com aquela família.
No fim, Resident Evil 7 não é perfeito, mas conseguiu fazer algo que considero muito importante para a franquia: colocar o terror novamente no centro da experiência sem abandonar completamente aquilo que faz um Resident Evil ser reconhecível.
Se você nunca jogou Resident Evil 7, eu definitivamente recomendo. Principalmente se sente falta de um Resident Evil em que explorar um ambiente desconhecido, ouvir um barulho no cômodo ao lado e decidir se vale a pena abrir uma porta novamente sejam tão importantes quanto o combate.
💾 Último Save

