Death Stranding

Death Stranding

Developer Kojima Productions
Publisher 505 Games
Lançamento 08/11/2019
Plataforma do Review PlayStation 5 Pro
Nota do Último Save
9,2

Death Stranding “entrega” uma das experiências mais marcantes dos videogames

Death Stranding coloca o jogador para reconectar uma América devastada, mas sua maior conquista está em transformar simples entregas em uma experiência emocionante. Descubra em nossa review por que a obra de Hideo Kojima vai muito além dos memes e continua sendo um dos jogos mais marcantes da última geração.

Lançado como o primeiro projeto da Kojima Productions após a saída de Hideo Kojima da Konami, Death Stranding coloca o jogador no papel de Sam Porter Bridges, um entregador encarregado de reconectar uma América devastada por um evento conhecido como Death Stranding. Em um mundo onde cidades vivem isoladas, criaturas sobrenaturais vagam pela superfície e a própria chuva acelera o tempo, cada entrega representa um pequeno passo para reconstruir uma sociedade que praticamente deixou de existir.

Durante anos, porém, tudo o que eu conhecia sobre o jogo vinha da internet. Os memes diziam que era apenas um “simulador de entregas”, o “jogo dos Correios” ou o “Mercado Livre Simulator”. Confesso que essa imagem fez com que eu deixasse Death Stranding de lado por bastante tempo, acreditando que a proposta dificilmente prenderia minha atenção.

Quando finalmente resolvi jogá-lo, no final de 2025, bastaram poucos minutos para perceber que eu não fazia ideia do que estava prestes a encontrar. A abertura do jogo já demonstra isso de forma impressionante. Antes mesmo da aventura realmente começar, Death Stranding apresenta uma longa sequência cinematográfica — com cerca de 45 minutos entre cenas e trechos jogáveis — introduzindo um universo repleto de fenômenos sobrenaturais, personagens misteriosos e conceitos que inicialmente parecem impossíveis de compreender.

Em vez de responder imediatamente às perguntas do jogador, Kojima faz exatamente o oposto. Cada nova cena desperta ainda mais curiosidade. O que são as BTs? Como funciona o DOOMS? O que realmente provocou o Death Stranding? Quem são aquelas pessoas e por que o mundo chegou àquele estado? Poucos jogos conseguiram me prender tão rapidamente apenas pela vontade de entender sua história, e essa curiosidade permaneceu viva praticamente durante toda a campanha.

Um mundo onde cada personagem tem algo para contar

Se a narrativa principal já é excelente, foram as pequenas histórias espalhadas pelo mapa que fizeram Death Stranding ganhar ainda mais personalidade para mim. Cada abrigo apresenta personagens com problemas, sonhos e dificuldades próprias, que evoluem conforme Sam continua realizando entregas. Aos poucos, eles deixam de ser apenas um destino marcado no mapa e passam a fazer parte da própria jornada.

Um dos exemplos que mais me marcou foi o de um casal que acompanhamos ao longo da campanha. Depois de enfrentar montanhas, BTs e MULEs para realizar diversas entregas importantes para os dois, descobri algum tempo depois que o relacionamento havia terminado. Foi impossível não rir da situação. Depois de tanto esforço tentando ajudá-los, eles acabaram enfrentando os mesmos problemas que qualquer casal poderia viver no mundo real. Outros personagens, como a Cosplayer, também possuem pequenas histórias que evoluem conforme fortalecemos nossa conexão com eles, tornando aquele universo muito mais humano.

Foi justamente esse cuidado com os detalhes que mais me surpreendeu. A campanha principal já seria suficiente para prender minha atenção, mas o jogo ainda encontra tempo para desenvolver dezenas de pequenas narrativas paralelas que enriquecem ainda mais seu universo. Em vez de simplesmente conectar cidades, Death Stranding faz o jogador acompanhar pessoas tentando reconstruir suas vidas depois que o mundo praticamente chegou ao fim, e isso faz com que praticamente toda entrega tenha algum significado além da recompensa recebida.

A progressão faz cada novo equipamento parecer uma conquista

Outro aspecto que considero exemplar é a maneira como Death Stranding apresenta suas mecânicas. Em vez de despejar dezenas de equipamentos logo nas primeiras horas, o jogo constrói sua progressão de forma extremamente cuidadosa. Primeiro aprendemos a caminhar carregando peso. Depois descobrimos como utilizar escadas, cordas e estruturas básicas. Somente quando essas mecânicas já fazem parte da rotina é que novos equipamentos começam a surgir, fazendo com que cada desbloqueio realmente pareça importante.

Um novo exoesqueleto, um veículo ou uma ferramenta inédita não servem apenas para facilitar a jornada. Eles mudam completamente a forma como atravessamos aquele mundo e transformam desafios que antes pareciam enormes em situações muito mais administráveis. Essa evolução constante faz com que tanto Sam quanto o próprio jogador cresçam juntos durante a campanha, criando uma curva de aprendizado extremamente natural. Poucos jogos conseguem transmitir tão bem essa sensação de evolução, e Death Stranding faz isso sem nunca sobrecarregar o jogador com mecânicas desnecessárias.

Um multiplayer que faz todo o sentido para a proposta do jogo

Se existe uma mecânica que representa perfeitamente a mensagem de Death Stranding, ela é o multiplayer assíncrono. Diferente da maioria dos jogos online, aqui nunca encontramos outros jogadores diretamente. Em vez disso, suas ações deixam marcas espalhadas pelo mundo. Escadas, cordas, geradores, pontes, abrigos e diversas outras estruturas construídas pela comunidade começam a aparecer naturalmente durante a exploração, tornando a jornada um pouco mais fácil para quem passa por ali depois.

No início, enxerguei esse sistema apenas como uma curiosidade. Era interessante encontrar uma escada em um lugar conveniente ou um gerador quando a bateria do meu veículo estava acabando. Mas, conforme a campanha avançava, comecei a perceber que eu também queria contribuir com aquele mundo. Aos poucos, passei a investir boa parte do meu tempo coletando materiais para construir rodovias e melhorar a infraestrutura compartilhada entre os jogadores.

O mais curioso é que o jogo nunca obriga ninguém a fazer isso. Construir estradas é uma atividade totalmente opcional, mas a sensação de colaborar com pessoas que você nunca verá pessoalmente é extremamente gratificante. Durante várias sessões de jogo, eu praticamente deixava a campanha principal de lado apenas para concluir mais um trecho da rodovia. Era um investimento que beneficiava minha própria jornada, mas também a de inúmeros outros jogadores.

A recompensa vinha sempre que eu retornava ao jogo. Bastava fazer login para surgir uma sequência enorme de notificações mostrando quantas pessoas haviam utilizado as estruturas que eu havia ajudado a construir. Receber centenas de curtidas sem sequer estar online era uma sensação difícil de explicar. Não existia recompensa em dinheiro, equipamentos raros ou qualquer vantagem competitiva. A satisfação vinha simplesmente por saber que o esforço dedicado horas antes havia tornado a jornada de outras pessoas um pouco mais fácil.

Poucos jogos conseguiram transformar sua principal mensagem em uma mecânica de gameplay de forma tão natural. Death Stranding fala o tempo inteiro sobre criar conexões entre pessoas, e seu multiplayer faz exatamente isso, mesmo sem colocar dois jogadores frente a frente em nenhum momento.

O combate surpreende muito mais do que os memes faziam parecer

Antes de jogar, eu também acreditava que Death Stranding seria praticamente um simulador de caminhadas, com o combate funcionando apenas como um detalhe. Felizmente, a realidade é bem diferente. Embora não seja o foco principal da experiência, os confrontos conseguem trazer variedade suficiente para quebrar o ritmo das entregas e impedir que a campanha se torne repetitiva.

Os encontros contra os MULEs, por exemplo, permitem diferentes abordagens. É possível agir furtivamente, utilizar equipamentos não letais ou partir para o confronto direto utilizando as diversas ferramentas desbloqueadas ao longo da campanha. O jogo ainda adiciona um peso narrativo interessante ao lembrar constantemente que matar pessoas não é uma solução viável naquele universo, fazendo com que cada combate tenha consequências muito maiores do que simplesmente derrotar alguns inimigos.

As BTs também ajudam a variar bastante a experiência. Enquanto os confrontos contra humanos valorizam movimentação e planejamento, os encontros com essas criaturas criam momentos de tensão em que atravessar um vale ou uma floresta pode se tornar muito mais perigoso do que parecia inicialmente. Essa alternância entre exploração, combate e gerenciamento de recursos impede que a rotina de entregas se torne cansativa, algo que eu sinceramente imaginava que aconteceria antes de começar o jogo.

Uma trilha sonora que sabe exatamente quando aparecer

Outro aspecto que me marcou profundamente foi a utilização da trilha sonora. Death Stranding passa boa parte do tempo deixando apenas os sons do ambiente acompanharem a caminhada. O vento, a chuva e os passos de Sam criam uma sensação constante de isolamento, reforçando a atmosfera daquele mundo devastado.

É justamente por isso que, quando uma música finalmente começa a tocar, o impacto é tão grande. Em diversos momentos da campanha, depois de longas caminhadas enfrentando rios, montanhas e terrenos extremamente acidentados, a câmera se afasta, revela a paisagem e uma canção começa a tocar de forma totalmente natural. Não existe HUD chamando atenção nem uma cena tentando forçar emoção. Apenas o jogador, a imensidão daquele cenário e a música conduzindo os últimos metros da viagem.

Foram esses momentos que fizeram Death Stranding deixar de ser apenas um jogo para se tornar uma experiência contemplativa. Até hoje consigo lembrar de algumas dessas caminhadas e das músicas que as acompanhavam, algo que poucos jogos conseguiram provocar comigo.

Vale o seu tempo?

Durante anos, Death Stranding ficou preso ao rótulo de “simulador de entregas”. Depois de terminar a campanha, posso dizer com tranquilidade que essa definição faz um enorme desserviço à obra de Hideo Kojima. Sim, você passará boa parte do tempo realizando entregas, mas elas são apenas o meio utilizado para contar uma história muito maior sobre conexões, reconstrução e esperança.

A narrativa principal é excelente, o universo criado pelo jogo desperta curiosidade do início ao fim e as pequenas histórias espalhadas pelos abrigos fazem com que cada personagem pareça uma pessoa real tentando seguir em frente depois de uma tragédia sem precedentes. Somado a isso, a progressão extremamente bem planejada, a liberdade para escolher como enfrentar cada desafio e um dos sistemas de multiplayer mais criativos da indústria transformam Death Stranding em uma experiência difícil de comparar com qualquer outro jogo.

Naturalmente, ele não é um título para todos os públicos. Seu ritmo é mais lento do que a maioria das grandes produções atuais, e a campanha exige paciência para que suas mecânicas e sua narrativa revelem todo o potencial. Mas, para quem aceita embarcar nessa proposta, a recompensa é enorme. Poucos jogos conseguiram me fazer sentir que minhas ações realmente importavam, tanto para os personagens daquele mundo quanto para jogadores que eu jamais conheceria.

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