Desenvolvido pelo estúdio taiwanês Red Candle Games, Nine Sols é um metroidvania de ação em 2D que combina exploração, plataformas e um combate fortemente baseado em parries. A aventura se passa em New Kunlun, uma antiga civilização que mistura elementos da mitologia chinesa com ficção científica, criando um universo conhecido pelos próprios desenvolvedores como Taopunk. Ao longo da campanha, o jogador assume o controle de Yi, um guerreiro que desperta após séculos de isolamento para enfrentar os misteriosos Nove Sols e desvendar os acontecimentos que mudaram completamente aquele mundo.
Confesso que comecei Nine Sols pelos motivos mais comuns. Alguns amigos insistiam para que eu jogasse por causa da dificuldade e comentavam que seu sistema de combate lembrava bastante Sekiro. Como nunca joguei o título da FromSoftware, entrei sem essa referência, esperando apenas um metroidvania desafiador.
Nas primeiras horas, foi exatamente isso que encontrei. Um jogo de ação em 2D com plataformas, exploração e chefes que exigem bastante precisão. A história acabou ficando em segundo plano enquanto eu aprendia o ritmo dos combates e tentava sobreviver aos primeiros confrontos.
Mas isso mudou completamente conforme a campanha avançava.
Pouco a pouco, Nine Sols começa a revelar muito mais do que apenas um excelente sistema de combate. As conversas, os documentos encontrados durante a exploração e principalmente os encontros com cada um dos Sols vão construindo um universo extremamente rico, misturando ficção científica, filosofia e referências ao taoismo em uma narrativa que constantemente desperta a curiosidade do jogador.
Foi justamente nesse momento que percebi que Nine Sols havia deixado de ser apenas um jogo difícil. Eu já não avançava apenas para derrotar o próximo chefe, mas para descobrir o que realmente havia acontecido em New Kunlun
Um combate que recompensa aprendizado, não reflexos
Embora Nine Sols seja frequentemente lembrado pela dificuldade, acredito que reduzir o jogo apenas a isso seria bastante injusto.
Seu sistema de combate é construído em torno do parry, mas não exige reflexos sobre-humanos. O que realmente faz diferença é compreender o comportamento de cada inimigo. Conforme você aprende o tempo correto para bloquear, contra-atacar e utilizar seus talismãs, batalhas que pareciam impossíveis passam a fluir de forma extremamente natural.
Essa evolução acontece graças a uma mecânica muito consistente. Os controles respondem com precisão, cada erro parece consequência de uma decisão do jogador e dificilmente a sensação de derrota transmite injustiça. Sempre existe a impressão de que, com mais uma tentativa, será possível fazer melhor.
Outro grande acerto está na árvore de habilidades.
Nine Sols oferece diversas possibilidades de evolução sem prender o jogador a um único estilo de combate. É possível fortalecer ataques, melhorar técnicas defensivas ou investir em habilidades que favorecem abordagens diferentes durante as batalhas. Essa liberdade faz com que cada jogador encontre naturalmente a forma de jogar com a qual mais se identifica.
Explorar New Kunlun sempre vale a pena
Assim como todo bom metroidvania, Nine Sols recompensa constantemente a curiosidade do jogador.
Novas habilidades desbloqueiam caminhos anteriormente inacessíveis, atalhos aparecem naturalmente e praticamente toda exploração resulta em algum tipo de recompensa útil, seja um novo recurso para evolução, melhorias permanentes ou simplesmente mais informações sobre aquele universo.
O grande diferencial, porém, está no seu hub principal.
Entre uma expedição e outra, é possível retornar para conversar com os personagens que acompanham Yi durante sua jornada. Essas interações nunca parecem estar ali apenas para preencher espaço. Conforme a campanha avança, novos diálogos surgem, relações evoluem e o abrigo passa a transmitir uma agradável sensação de lar em meio a um mundo bastante hostil.
Um dos maiores destaques fica para Shuanshuan, o curioso garoto que vive no refúgio. Acompanhar sua visão inocente sobre New Kunlun e vê-lo aprender pouco a pouco sobre aquela civilização acaba se tornando uma das partes mais carismáticas de toda a campanha. São momentos mais leves que ajudam a equilibrar o peso da narrativa principal e tornam o universo do jogo ainda mais interessante.
Cada Sol é um desafio memorável
Os grandes confrontos contra os Sols representam alguns dos melhores momentos de Nine Sols.
Cada chefe possui personalidade própria, motivações bem definidas e um estilo de combate completamente diferente dos anteriores. O jogo evita cair na armadilha de simplesmente aumentar a quantidade de vida ou o dano dos inimigos. Em vez disso, cada batalha apresenta novas mecânicas e exige que o jogador domine aspectos diferentes do sistema de combate.
Essa variedade faz com que a curva de dificuldade pareça extremamente natural. Sempre existe aquela sensação de que o próximo chefe será ainda mais desafiador, mas nunca de forma injusta. A cada vitória, fica evidente o quanto o próprio jogador evoluiu desde o início da campanha.
Foi justamente essa evolução que mais me agradou. Muitas vezes derrotei um chefe apenas depois de dezenas de tentativas, mas em nenhum momento senti que estava dependendo de sorte. Cada derrota ensinava um novo padrão de ataque, um momento melhor para utilizar o parry ou uma oportunidade diferente para contra-atacar.
Quando finalmente a vitória acontece, a sensação de recompensa é enorme.
Side quests que realmente complementam a aventura
Outro aspecto que gostei bastante foi a forma como Nine Sols trabalha seu conteúdo opcional.
As side quests não existem apenas para aumentar artificialmente a duração da campanha. Boa parte delas apresenta novos diálogos, desenvolve personagens secundários e ajuda a compreender melhor o funcionamento de New Kunlun e da sociedade criada pelos Sols.
Isso faz com que explorar o mapa nunca pareça perda de tempo. Mesmo quando a recompensa não é um novo equipamento ou uma melhoria permanente, normalmente existe alguma informação interessante sobre aquele universo esperando pelo jogador.
Essa atenção aos detalhes também aparece nas conversas dentro do hub principal. Conforme novos acontecimentos ocorrem, praticamente todos os personagens passam a ter novos diálogos, reforçando a sensação de que aquele mundo continua vivo mesmo enquanto Yi está explorando outras regiões.
Um final que recompensa toda a jornada
As decisões tomadas durante a campanha também possuem importância.
Sem entrar em spoilers, algumas escolhas realizadas ao longo da aventura influenciam diretamente o desfecho da história, incentivando o jogador a prestar atenção não apenas nos combates, mas também nas relações construídas durante a campanha.
Na minha primeira jogatina optei por buscar praticamente tudo o que o jogo tinha para oferecer. Explorei o mapa quase completamente, concluí boa parte do conteúdo opcional e consegui alcançar o final considerado mais positivo da história.
Foi uma decisão da qual não me arrependi.
Diferente de muitos jogos que escondem finais alternativos atrás de escolhas pouco intuitivas, Nine Sols constrói esse desfecho de maneira bastante coerente com tudo aquilo que foi desenvolvido ao longo da campanha. Quando os créditos finalmente começaram a subir, tive a sensação de que toda aquela jornada havia levado naturalmente até aquele momento.
Vale o seu tempo?
Nine Sols foi uma das maiores surpresas que tive nos últimos anos.
Entrei esperando apenas um metroidvania difícil, mas encontrei uma experiência muito mais completa. Seu excelente sistema de combate, a liberdade para montar diferentes builds, a exploração constantemente recompensadora e uma narrativa que cresce a cada nova descoberta fazem com que o jogo permaneça interessante do início ao fim.
O combate baseado em parries certamente será o primeiro aspecto que chamará a atenção de muitos jogadores. Embora muita gente compare Nine Sols a Sekiro, minha experiência com o jogo foi construída sem essa referência. Ainda assim, seu sistema de combate conseguiu se destacar por mérito próprio, graças à precisão dos controles e à satisfação de aprender cada confronto.
Mesmo para quem normalmente não gosta de jogos muito difíceis, acredito que Nine Sols merece uma chance. A curva de aprendizado é excelente, o jogo recompensa a persistência e dificilmente deixa a sensação de que a derrota aconteceu por culpa dos controles ou de decisões injustas de design.
Se você procura um metroidvania capaz de oferecer desafios memoráveis sem abrir mão de uma narrativa envolvente, Nine Sols é facilmente uma das melhores recomendações do gênero.
